Jekyll2025-03-27T13:21:29+00:00https://rodrigo.ghed.in/feed.xmlrodrigo.ghed.inO jardim digital de Rodrigo GhedinA tirania do mérito2025-03-27T13:20:00+00:002025-03-27T13:20:00+00:00https://rodrigo.ghed.in/blog/a-tirania-do-meritoFoi por insistência das minhas irmãs que li “A tirania do mérito”, do Michael J. Sandel, publicado no Brasil pela Civilização Brasileira. Não estava muito animado porque, a julgar pela capa, a mim o argumento é chover no molhado. Óbvio que a meritocracia é tirana. E não só: é, também, uma falácia, talvez a maior falácia da contemporaneidade.

O livro me deixou um tanto deprimido. Michael traz argumentos com que já havia me deparado e outros que não tinham me ocorrido. Apreciei, em especial, o foco igualitário que ele dá a vencedores e derrotados na dinâmica meritocrática, e às diversas maneiras em que ela se manifesta — mesmo com o foco no contexto estadunidense.

O trecho abaixo não representa o todo, mas sintetiza o livro da melhor maneira que seria possível em apenas meio parágrafo:

[…] vale a pena notar que o regime do mérito exerce sua tirania em duas direções ao mesmo tempo. Nas pessoas que chegam ao topo induz à ansiedade, a um debilitante perfeccionismo e à arrogância meritocrática que se esforça para esconder uma autoestima frágil. Nas pessoas que deixa para trás, ela impõe um desmoralizante, até mesmo humilhante, senso de fracasso.

Meu maior lamento, talvez a fonte da depressão pós-leitura, é saber que quem mais precisa não lerá esse negócio. Que temos consciência do que está errado e que mudar isso depende de um esforço monumental e coordenado em um momento da história em que o individualismo, o espírito de sobrevivência (diante de ameaças ilusórias ou equivocadas) impera.

“A tirania do mérito” desmonta a ilusão de que uma utopia meritocrática, onde todos teríamos oportunidades iguais (ou isonômicas, que seja), seria um bom lugar de se viver. Isso talvez seja mais importante até que a conscientização da impossibilidade meritocrática, que também é objeto de boa argumentação.

Michael abre a conclusão com um didatismo invejável. Tomo a liberdade de transcrever o trecho na íntegra:

Henry Aaron, um dos melhores jogadores de baseball, cresceu no Sul segregado. Seu biógrafo, Howard Bryant, contou que, quando criança, “Henry assistia ao pai ser forçado a ceder o lugar na fila do armazém para qualquer pessoa branca que entrasse”. Quando Jackie Robinson rompeu a barreira da cor no esporte, Henry, então com 13 anos, foi inspirado a acreditar que também poderia um dia jogar na Major League. Sem ter bastão nem bola, ele praticava com o que tinha, usava uma vara para rebater tampas de garrafa arremessadas por seu irmão. Ele chegou a bater o recorde de home runs registrado por Babe Ruth.

Em uma observação pungente, Bryant escreveu: “Rebater, seria possível argumentar, representou a primeira meritocracia na vida de Henry.”

É difícil ler essa frase sem amar a meritocracia, sem enxergá-la como uma irrevogável resposta à injustiça — uma vindicação do talento acima do preconceito, do racismo e das oportunidades desiguais. E a partir desse pensamento, é um passo pequeno até a conclusão de que uma sociedade justa é meritocrática, onde todo mundo tem uma chance igual de ascender até onde seu talento e seu trabalho árduo os levarem.

Mas isso é um erro. A moral da história de Henry Aaron não é que deveríamos amar a meritocracia, mas que deveríamos detestar um sistema de injustiça racial do qual consegue-se escapar somente rebatendo, em home runs. Igualdade de oportunidade é uma correção moralmente necessária da injustiça. No entanto, é um princípio reparador, não um ideal adequado para uma boa sociedade.

Nas páginas seguintes, o autor elabora como seria uma sociedade não-meritocrática em que todos poderiam ter uma boa vida. Não é, ao contrário do que sugere o discurso pró-meritocrático, um sistema de igualdade absoluta. Um último trecho:

Com frequência, presume-se que a única alternativa para a igualdade de oportunidade é uma igualdade de resultados estéril, opressiva. Entretanto, há outra alternativa: uma ampla igualdade de condição que permite àqueles que não alcançam grandes riquezas ou posições de prestígio vivam com decência e dignidade, desenvolvendo e exercitando suas habilidades em trabalhos que rendem estima social, compartilhando de uma cultura do aprendizado que seja amplamente difusa, e deliberando junto a concidadãos sobre questões públicas.

Note que há um padrão nas melhores reflexões acerca da boa vida, ou do que nos impede de proporcioná-la a mais pessoas: competitividade, celeridade, desigualdade.

Tem sido difícil relaxar diante de um arranjo tão ruim como esse em que nos meteram.

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A antropomorfização dos fenômenos climáticos…2025-03-25T12:19:00+00:002025-03-25T12:19:00+00:00https://rodrigo.ghed.in/blog/a-antropomorfizacao-dos-fenomenos-climaticosA antropomorfização dos fenômenos climáticos — “a frente fria ‘gostou’ do Centro-Oeste e decidiu ficar mais tempo lá”.

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Depois de uma animada conversa neste domingo…2025-03-17T21:08:00+00:002025-03-17T21:08:00+00:00https://rodrigo.ghed.in/blog/abril-sem-registrar-receitas-despesasDepois de uma animada conversa neste domingo a respeito do que as pessoas fazem com computadores fora do trabalho, que nos levou a falar de planilhas eletrônicas e registros diversos, decidi passar abril sem registrar minhas despesas e receitas, uma prática que carrego comigo faz uns dez anos e, acho, das poucas remanescentes que me dão a fama (injusta?) de “controlador”.

Espero não entrar em maio pendurado no cheque especial.

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Vez ou outra acesso o site do YouTube para…2025-03-17T12:44:00+00:002025-03-17T12:44:00+00:00https://rodrigo.ghed.in/blog/vez-ou-outra-acesso-o-site-do-youtube-paraVez ou outra acesso o site do YouTube para ver se o algoritmo me recomenda alguma coisa e sempre dou de cara com as mesmas coisas.

Na tentativa de oxigenar as recomendações, de topar com coisas diferentes, passei a marcar com “Não tenho interesse” alguns tipos de vídeos:

  • Minha casa/mesa/setup minimalista e/ou para “produtividade”.
  • Vídeos de produtividade.
  • “Não consigo viver sem esses aplicativos” (sempre os mesmos).
  • Reviews de quaisquer coisas.

É meio estranha a sensação ao ter contato com conteúdo personalizado. Fico pensando se sou tão previsível ou o algoritmo é que é muito presunçoso. Mesmo há dias marcando “Não tenho interesse”, a relação sinal–ruído continua ruim.

Acompanho os canais de que gosto pelos feeds RSS (sabia que o YouTube os oferece?), baixando os vídeos para assisti-los na TV, com a ajuda do Jellyfin + Roku Express.

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Young sugere que estar consciente da arbitrariedade…2025-03-12T17:51:00+00:002025-03-12T17:51:00+00:00https://rodrigo.ghed.in/blog/a-tirania-do-merito-young

[Michael] Young sugere que estar consciente da arbitrariedade moral da posição social de uma pessoa tem certa vantagem: evita que tanto vencedores quanto perdedores acreditem que merecem sua sina. Isso não justifica o sistema de classe. Mas explicita uma característica paradoxal de uma ordem meritocrática. Alocar empregos e oportunidades conforme o mérito não reduz a desigualdade, mas reconfigura a desigualdade para alinhá-la à habilidade. No entanto, essa reconfiguração cria o pressuposto de que as pessoas recebem o que merecem. E esse pressuposto aprofunda a diferença entre rico e pobre.

— Michael J. Sandel, A tirania do mérito.

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Negatividade2025-03-09T20:18:00+00:002025-03-09T20:18:00+00:00https://rodrigo.ghed.in/blog/negatividadeTornei-me a pessoa que temia: um reclamão. A ponto de, no domingo de Carnaval, P. reclamar que eu estava muito negativo.

Faz alguns meses que virei participante involuntário do clube dos que acordam às 5h da manhã, o que me levou a ver o final dos desfiles das escolas de samba por esses dias. A única coisa em que conseguia pensar enquanto elas passavam pela avenida era a poluição monumental que deixavam para trás, das fantasias detalhadas aos carros alegóricos imponentes.

Mais tarde, vimos o vídeo da Anitta mostrando sua casa, o que talvez tenha sido um equívoco porque não consigo ver impassível vídeos do gênero “gente muito rica mostrando suas mansões bregas”.

É esse tipo de negatividade, uma mistura de tédio, impaciência e uma pitada de cinismo, que estou emanando.

Talvez os dias de feriado tenham levado a um aumento nos acessos ao Bluesky (Twitter 2.0) e do consumo de TV. Tratei de cortar ambos.

Preciso sair mais de casa.

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the news2025-03-08T11:08:00+00:002025-03-08T11:08:00+00:00https://rodrigo.ghed.in/blog/the-newsEm 2022, tive uma experiência decepcionante com a the news, a maior newsletter do Brasil[carece de fontes].

Na época, publiquei o incidente no finado Twitter e, depois, no LinkedIn, lugares onde essas coisas viralizam e depois desaparecem.

Há muito não ouvia falar da the news, mesmo com todo o (suposto) sucesso. (Picaretagem vende, pelo visto.) Topei com ela na última edição da Farol Jornalismo, que abordou o “termômetro da imparcialidade” lançado pela referida newsletter, mais uma prova do fracasso do ecossistema digital que parece recompensar apenas gente burra, ingênua ou mal-intencionada — ou as três coisas ao mesmo tempo, como parece ser o caso aqui.

Para registro e referências futuras, transcrevo a ~denúncia que fiz em 2022. E reforço o convite: se você se informa pela the news, reconsidere. Estar mal informado é pior que ser desinformado.

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Como perder o cliente com apenas um e-mail desnecessariamente babaca, estrelando the news.

Na edição desta quinta (20), a the news trouxe um tópico sobre o depoimento do [então ministro da Saúde, Eduardo] Pazuello. Chamou-me a atenção eles terem abordado o assunto com um texto declaratório, ou seja, só repetindo o que o ex-ministro falou, com várias mentiras, sem fazer contraponto.

No final do tópico, havia um aviso: “Aos novatos: Aqui, a conclusão e o senso crítico são sempre do leitor”, seguido de dois links: um para o depoimento completo (quebrado) e outro para uma notícia da… Agência Brasil, ou seja, do governo.

Desde a [primeira, em 2016] eleição de Trump esse tipo de jornalismo declaratório tem sido criticado. Ao dar palanque a mentiroso sem questionar com firmeza as mentiras, o veículo empresta sua credibilidade ao mentiroso.

Mandei um e-mail ao the news com uma famigerada crítica construtiva. Resposta: “[…] Sinta-se super à vontade em deixar de assinar, se acredita que fazemos um desserviço aos leitores. Simples assim.” E ainda me chamaram de “Rô”, liberdade que jamais lhes dei.

Retornei, dizendo-me duplamente decepcionado. Resposta: “Você não fez uma crítica construtiva. Você fez uma crítica pessoal, segundo o que você acredita e deseja que façamos.”

Cancelei. “Simples assim.” 🤷‍♀️

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Compramos uma lata de WD-40 na esperança de…2025-03-07T20:45:00+00:002025-03-07T20:45:00+00:00https://rodrigo.ghed.in/blog/wd-40Compramos uma lata de WD-40 na esperança de desemperrar as maçanetas de algumas janelas de casa. Não resolveu, mas acabou com os rangidos das dobradiças da porta do banheiro.

Nunca havia usado esse produto, nem sabia qualquer coisa a respeito além sua fama de versátil. Descobri, lendo as instruções na lata, que tem derivados de petróleo na composição. Será que existe alternativa ~vegana? E no que mais eu poderia usá-lo?

Ah, se alguém souber como desemperrar maçanetas de janelas, avise-me.

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Acredite ou não, hoje fiz a reserva em um restaurante…2025-03-06T12:07:00+00:002025-03-06T12:07:00+00:00https://rodrigo.ghed.in/blog/reserva-restaurante-siteAcredite ou não, hoje fiz a reserva em um restaurante preenchendo um formulário dentro de um site. Sem Instagram, sem WhatsApp. Em que ano estamos? Há esperança?? Como nada é perfeito, o formulário é de uma startup de (pelo que entendi) reservas e filas em restaurantes.

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“Ainda estou aqui” (2024)2025-03-06T11:36:00+00:002025-03-06T11:36:00+00:00https://rodrigo.ghed.in/blog/ainda-estou-aquiFernanda Torres, com semblante sério e olhos marejados, encarando a câmera no papel de Eunice Paiva.

Ainda estou aqui (Walter Salles, 2024).

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