O livro me deixou um tanto deprimido. Michael traz argumentos com que já havia me deparado e outros que não tinham me ocorrido. Apreciei, em especial, o foco igualitário que ele dá a vencedores e derrotados na dinâmica meritocrática, e às diversas maneiras em que ela se manifesta — mesmo com o foco no contexto estadunidense.
O trecho abaixo não representa o todo, mas sintetiza o livro da melhor maneira que seria possível em apenas meio parágrafo:
[…] vale a pena notar que o regime do mérito exerce sua tirania em duas direções ao mesmo tempo. Nas pessoas que chegam ao topo induz à ansiedade, a um debilitante perfeccionismo e à arrogância meritocrática que se esforça para esconder uma autoestima frágil. Nas pessoas que deixa para trás, ela impõe um desmoralizante, até mesmo humilhante, senso de fracasso.
Meu maior lamento, talvez a fonte da depressão pós-leitura, é saber que quem mais precisa não lerá esse negócio. Que temos consciência do que está errado e que mudar isso depende de um esforço monumental e coordenado em um momento da história em que o individualismo, o espírito de sobrevivência (diante de ameaças ilusórias ou equivocadas) impera.
“A tirania do mérito” desmonta a ilusão de que uma utopia meritocrática, onde todos teríamos oportunidades iguais (ou isonômicas, que seja), seria um bom lugar de se viver. Isso talvez seja mais importante até que a conscientização da impossibilidade meritocrática, que também é objeto de boa argumentação.
Michael abre a conclusão com um didatismo invejável. Tomo a liberdade de transcrever o trecho na íntegra:
Henry Aaron, um dos melhores jogadores de baseball, cresceu no Sul segregado. Seu biógrafo, Howard Bryant, contou que, quando criança, “Henry assistia ao pai ser forçado a ceder o lugar na fila do armazém para qualquer pessoa branca que entrasse”. Quando Jackie Robinson rompeu a barreira da cor no esporte, Henry, então com 13 anos, foi inspirado a acreditar que também poderia um dia jogar na Major League. Sem ter bastão nem bola, ele praticava com o que tinha, usava uma vara para rebater tampas de garrafa arremessadas por seu irmão. Ele chegou a bater o recorde de home runs registrado por Babe Ruth.
Em uma observação pungente, Bryant escreveu: “Rebater, seria possível argumentar, representou a primeira meritocracia na vida de Henry.”
É difícil ler essa frase sem amar a meritocracia, sem enxergá-la como uma irrevogável resposta à injustiça — uma vindicação do talento acima do preconceito, do racismo e das oportunidades desiguais. E a partir desse pensamento, é um passo pequeno até a conclusão de que uma sociedade justa é meritocrática, onde todo mundo tem uma chance igual de ascender até onde seu talento e seu trabalho árduo os levarem.
Mas isso é um erro. A moral da história de Henry Aaron não é que deveríamos amar a meritocracia, mas que deveríamos detestar um sistema de injustiça racial do qual consegue-se escapar somente rebatendo, em home runs. Igualdade de oportunidade é uma correção moralmente necessária da injustiça. No entanto, é um princípio reparador, não um ideal adequado para uma boa sociedade.
Nas páginas seguintes, o autor elabora como seria uma sociedade não-meritocrática em que todos poderiam ter uma boa vida. Não é, ao contrário do que sugere o discurso pró-meritocrático, um sistema de igualdade absoluta. Um último trecho:
Com frequência, presume-se que a única alternativa para a igualdade de oportunidade é uma igualdade de resultados estéril, opressiva. Entretanto, há outra alternativa: uma ampla igualdade de condição que permite àqueles que não alcançam grandes riquezas ou posições de prestígio vivam com decência e dignidade, desenvolvendo e exercitando suas habilidades em trabalhos que rendem estima social, compartilhando de uma cultura do aprendizado que seja amplamente difusa, e deliberando junto a concidadãos sobre questões públicas.
Note que há um padrão nas melhores reflexões acerca da boa vida, ou do que nos impede de proporcioná-la a mais pessoas: competitividade, celeridade, desigualdade.
Tem sido difícil relaxar diante de um arranjo tão ruim como esse em que nos meteram.
]]>Espero não entrar em maio pendurado no cheque especial.
]]>Na tentativa de oxigenar as recomendações, de topar com coisas diferentes, passei a marcar com “Não tenho interesse” alguns tipos de vídeos:
É meio estranha a sensação ao ter contato com conteúdo personalizado. Fico pensando se sou tão previsível ou o algoritmo é que é muito presunçoso. Mesmo há dias marcando “Não tenho interesse”, a relação sinal–ruído continua ruim.
Acompanho os canais de que gosto pelos feeds RSS (sabia que o YouTube os oferece?), baixando os vídeos para assisti-los na TV, com a ajuda do Jellyfin + Roku Express.
]]>[Michael] Young sugere que estar consciente da arbitrariedade moral da posição social de uma pessoa tem certa vantagem: evita que tanto vencedores quanto perdedores acreditem que merecem sua sina. Isso não justifica o sistema de classe. Mas explicita uma característica paradoxal de uma ordem meritocrática. Alocar empregos e oportunidades conforme o mérito não reduz a desigualdade, mas reconfigura a desigualdade para alinhá-la à habilidade. No entanto, essa reconfiguração cria o pressuposto de que as pessoas recebem o que merecem. E esse pressuposto aprofunda a diferença entre rico e pobre.
— Michael J. Sandel, A tirania do mérito.
]]>Faz alguns meses que virei participante involuntário do clube dos que acordam às 5h da manhã, o que me levou a ver o final dos desfiles das escolas de samba por esses dias. A única coisa em que conseguia pensar enquanto elas passavam pela avenida era a poluição monumental que deixavam para trás, das fantasias detalhadas aos carros alegóricos imponentes.
Mais tarde, vimos o vídeo da Anitta mostrando sua casa, o que talvez tenha sido um equívoco porque não consigo ver impassível vídeos do gênero “gente muito rica mostrando suas mansões bregas”.
É esse tipo de negatividade, uma mistura de tédio, impaciência e uma pitada de cinismo, que estou emanando.
Talvez os dias de feriado tenham levado a um aumento nos acessos ao Bluesky (Twitter 2.0) e do consumo de TV. Tratei de cortar ambos.
Preciso sair mais de casa.
]]>Na época, publiquei o incidente no finado Twitter e, depois, no LinkedIn, lugares onde essas coisas viralizam e depois desaparecem.
Há muito não ouvia falar da the news, mesmo com todo o (suposto) sucesso. (Picaretagem vende, pelo visto.) Topei com ela na última edição da Farol Jornalismo, que abordou o “termômetro da imparcialidade” lançado pela referida newsletter, mais uma prova do fracasso do ecossistema digital que parece recompensar apenas gente burra, ingênua ou mal-intencionada — ou as três coisas ao mesmo tempo, como parece ser o caso aqui.
Para registro e referências futuras, transcrevo a ~denúncia que fiz em 2022. E reforço o convite: se você se informa pela the news, reconsidere. Estar mal informado é pior que ser desinformado.
***
Como perder o cliente com apenas um e-mail desnecessariamente babaca, estrelando the news.
Na edição desta quinta (20), a the news trouxe um tópico sobre o depoimento do [então ministro da Saúde, Eduardo] Pazuello. Chamou-me a atenção eles terem abordado o assunto com um texto declaratório, ou seja, só repetindo o que o ex-ministro falou, com várias mentiras, sem fazer contraponto.
No final do tópico, havia um aviso: “Aos novatos: Aqui, a conclusão e o senso crítico são sempre do leitor”, seguido de dois links: um para o depoimento completo (quebrado) e outro para uma notícia da… Agência Brasil, ou seja, do governo.
Desde a [primeira, em 2016] eleição de Trump esse tipo de jornalismo declaratório tem sido criticado. Ao dar palanque a mentiroso sem questionar com firmeza as mentiras, o veículo empresta sua credibilidade ao mentiroso.
Mandei um e-mail ao the news com uma famigerada crítica construtiva. Resposta: “[…] Sinta-se super à vontade em deixar de assinar, se acredita que fazemos um desserviço aos leitores. Simples assim.” E ainda me chamaram de “Rô”, liberdade que jamais lhes dei.
Retornei, dizendo-me duplamente decepcionado. Resposta: “Você não fez uma crítica construtiva. Você fez uma crítica pessoal, segundo o que você acredita e deseja que façamos.”
Cancelei. “Simples assim.” 🤷♀️
]]>Nunca havia usado esse produto, nem sabia qualquer coisa a respeito além sua fama de versátil. Descobri, lendo as instruções na lata, que tem derivados de petróleo na composição. Será que existe alternativa ~vegana? E no que mais eu poderia usá-lo?
Ah, se alguém souber como desemperrar maçanetas de janelas, avise-me.
]]>Ainda estou aqui (Walter Salles, 2024).
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